Em uma crise, na qual a demanda cai fortemente, um dos papéis da política econômica é incentivar a antecipação de consumo ou de investimento, além de ampliar o gasto direto do setor público. Ou seja, um dos pilares da política econômica anticíclica está em procurar antecipar gastos, na expectativa de que tenha lugar uma recuperação econômica que dispense o artifício. O Brasil fez isso ao longo de 2009, assim como muitos outros países, e isso contribuiu para que a economia brasileira saísse mais rapidamente da crise.
No entanto, o sucesso cobra um preço. Se houve êxito, por exemplo, em antecipar o consumo das famílias e se essa antecipação se deu majoritariamente em bens duráveis, cujo consumo foi incentivado por redução de impostos, isso desequilibrou, em alguma medida, os ciclos de produtos próprios a cada dos segmentos de bens duráveis. Em outras palavras, antecipar o consumo de geladeiras em 2009 - para dar um exemplo - poderá deprimir o crescimento do consumo desse bem em algum momento no futuro, provavelmente no ano seguinte, ou seja, em 2010.
Ainda hoje, a Fenabrave anunciou uma queda de grandes proporções das vendas de automóveis no mercado interno em janeiro deste ano com relação a dezembro de 2009. A indústria brasileira pode estar, portanto, sofrendo as consequências de uma grande e pertinente onda de antecipações, nada que o tempo e o trabalho com outros mecanismos - como o incentivo ao crédito - não possam resolver. Essa fator pode ter sido preponderante para a retração da produção industrial em dezembro (-0,3% com relação a novembro, na série com ajuste sazonal), a qual, não por acaso, ficou restrita à redução em bens duráveis.
A expectativa de um bom resultado de crescimento da indústria em 2010 se mantém, mas, para isso, ela deverá contar com um comportamento positivo e compensatório da produção de bens de capital e de bens intermediários. Como já foi observado, um esforço de redução das taxas de juros do crédito será capaz de compensar os efeitos descritos de antecipação de consumo sobre a indústria.
Cabe um destaque na análise da evolução da indústria em 2009, um ano marcado pela crise internacional. Como se sabe, se, para a economia brasileira como um todo, a crise teve um efeito relativamente pequeno, para a indústria as coisas se passaram de forma diferente. O "tombo" dos níveis de produção industrial ocorrido no último trimestre de 2008 e primeiro trimestre de 2009 foi extraordinário e a indústria, em geral, demorou mais para reagir à crise. De fato, os três trimestres seguintes foram de recuperação na margem, mas, devido ao forte impacto inicial, tais avanços não foram suficientes para neutralizar os resultados ruins anteriores.
No acumulado do ano de 2009, a produção caiu 7,4%. O resultado mais adverso ocorreu no setor de bens de capital, cuja produção retraiu 17,4%, denotando o duplo efeito negativo sobre o setor, qual seja, do colapso do investimento doméstico e das exportações de manufaturados. Esse setor é, no entanto, o que vem liderando, na margem, o crescimento da produção industrial. No último trimestre de 2009 com relação ao terceiro trimestre, na série com ajuste sazonal, sua produção cresceu 13,3%, contra uma média geral da indústria de 3,6%.
O setor de bens intermediários também sofreu um duplo impacto negativo, desta feita por causa da própria retração da indústria doméstica e do forte retrocesso das exportações. A produção de bens intermediários caiu 8,5% em 2009, mas esse setor é o segundo (atrás de bens de capital) em crescimento significativo na margem. No quarto trimestre de 2009 com relação ao terceiro, com ajuste sazonal, a produção de bens intermediários aumentou 4,5%.
O cenário para bens duráveis foi influenciado decisivamente pelo processo de incentivos de antecipação de consumo já descrito. Mas, mesmo assim, na média de 2009, houve queda de 6,4% em sua produção. Na margem, esse setor vem registrando resultados cadentes. No quarto trimestre de 2009 frente ao terceiro, o crescimento foi de 2,6%.
Por sua vez, o setor de bens semi-duráveis e não duráveis praticamente não foi afetado pela crise, já que o emprego e a massa de rendimentos reais da população foram preservados por políticas de renda - e não por políticas de antecipação de consumo. Certamente devido ao impacto da queda da exportação em alguns ramos de alimentos e pela retração doméstica da produção em segmentos como vestuário e têxtil, o setor de bens semi-duráveis e não duráveis teve queda de 1,6% em 2009. No último trimestre desse ano, o setor denota uma aceleração de suas taxas de produção, com crescimento de 1,4% frente ao terceiro trimestre - na série com ajuste sazonal.
Uma observação final é que a indústria brasileira, que na média de 2009 acumulou forte retração (-7,4%, como já foi mencionado), fechou esse mesmo ano com um notável crescimento de 3,6%, representado pela evolução do quarto trimestre com relação ao terceiro - também com ajuste sazonal.
Fonte: IEDI - Instituto de Estudos para o Desenvolvimento industrial
http://www.fiesp.com.br/newsletter/depecon/depecon-iedi-020210.htm
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